sábado, outubro 24, 2015

Razão ou Sensibilidade - por Harrison Lopes

O sensivel sofre mais
O desapegado sente menos
Um vê detalhes em cada cor
O outro só preto e branco
Um ignora, um suga-a-dor
Há o que vive só de momentos
Há quem perceba todo encanto
mesmo que vire lamentos
Um zomba do outro
O outro se compadece do um
Pobre dos dois...
Que não sabem
Que muitos anos depois
Como num passe de mágica
inesperado, como o sentido do vento
Um se transforma no outro
Com as agruras do tempo

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Adeus, adeus, adeus
Cinco letras que choram
Num soluço de dor
Adeus, adeus, adeus
É como o fim de uma estrada
Cortando a encruzilhada
Ponto final de um romance de amor
Quem parte, tem os olhos rasos d’água
Ao sentir a grande mágoa
Por se despedir de alguém
Quem fica, também fica chorando
Com o lenço acenando
Querendo partir também...


Assim ela me punha a dormir durante tantas noites na minha infância.
Fecho os olhos e ainda consigo ouvir sua voz aguda e embargada pela emoção que a letra da canção com certeza lhe impunha. Adorava ouvir as estórias que contava sobre ela e “ seu velho” (como se referia carinhosamente ao meu avô), sobre como venceram as dificuldades da vida e criaram seus filhos. Ria gostosamente dos episódios em que ela narrava as travessuras de minha mãe e de meus tios e tias quando crianças. Deixava escapar as lágrimas disfarçadamente quando falava da partida de minha bisavó e do dia em que perdera o homem de sua vida. Dessa forma eram embalados os meus sonhos; com todas as doses ideais da realidade que uma criança pudesse absorver.

Com uma sabedoria que escola alguma poderia ensinar, ela me ensinou as coisas da vida. Me mostrou como não guardar râncor, a ajudar sem olhar a quem e a ser honesto, acima de todas as coisas. Lembro-me de por vezes questionar que ela não aplicava a sí mesmo alguns desses ensinamentos e ela sempre dizia: “ mas, você tem que ser uma pessoa melhor”

Hoje as letras dessa canção embargam a minha voz e todas as mais tenras lembranças voltaram nitidas, como as cores dos seus vestidos de ir a igreja aos domingos, o odor do café fresquinho de nossas manhãs, o som divertido de suas risadas ou o leve afago em meus cabelos pra que eu despertasse e fosse à escola.

Se me perguntassem o que ela me deixou de valor, eu diria que o seu legado não poderia ter sido mais valioso, pois ela o demonstrou e praticou em todos os papéis de sua longa vida: ela me ensinou a amar...



Não tenho como você tanta força
Me falta coragem,não tenho teu brilho.
Mas aprendi com tua história,
Gravei tua imagem alegre. Herdei teu sorriso...

Quando um dia partires pro céu dos anjos
Ficarás nos sonhos dos teus filhos
No olhar de esperança dos teus netos
Dormirei com a lembrança dos teus cantos.

Me ensinaste a caminhar,a passar pela dor
Perdoa...não tenho tua calma. Ainda me perco...
Mas guardei em mim tua vontade de viver,
sou uma parte tua, minha mãe. Herdei teu amor...

(Harry)





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segunda-feira, junho 27, 2005

" Posso ir de maos dadas com voce?", ela perguntou. "Claro" , respondi. E, a partir dai, caminhávamos juntos para a escola todos os dias. Felizes, inocentes que éramos... No intervalo, aos poucos fui deixando de lado meus brinquedos para olhá-la, admirando o jeito que seus cabelos caiam sobre seus olhos e o gesto gracioso que fazia para afastá-los. Mesmo após tantos anos, ainda lembro. Fora esse meu primeiro contato com o amor.

Era uma época de descobertas. Naquele tempo, de inúmeros caminhos, todos levando a portas instigantemente abertas, aquela pessoa talvez tenha tido grande importância na formação de características pessoais que hoje são dominantes em minha personalidade. Isso, é claro, combinado a outros eventos teoricamente pequenos, como o encontro do livro de poesias perdido em meio a uma pilha de papéis de meu pai. Livro que trazia palavras que pareciam ter o incrível poder de descrevê-la em detalhes que só eu conseguia ver. E assim passava minhas noites: lendo uma a uma aquelas poesias para que pudesse comparar todas as estrofes aos sorrisos que durante o dia ela me ofertasse.

Não conseguia lembrar seu nome, mas sempre me perguntei onde estaria, o que estaria fazendo agora...Aqueles momentos nao se apagaram. Parecem ter se colocado naquele lugar chamado de "Memórias Permanentes", dada a riqueza de cores e sons de minhas lembranças.

Outro dia, estava em casa de uma tia, que nao visitava há anos. Tia essa que ainda está no velho bairro, onde antigamente todos da familia moravam. tempos bons...Enfim...as crianças brincavam em frente a casa (incrível como as familias parecem crescer de tal maneira que se torna difícil acompanhar. São filhos de primos, filhos dos filhos desses primos...tantas novas pessoas, tantos nomes...). Eram muitas e faziam um barulho ensurdecedor. Dentro da casa, contrastando com a confusão de fora, havia uma menina que brincava silenciosamente com suas bonecas no sofá. Eu a observava de longe. Havia algo estranhamente familiar em seu jeito, uma leveza de movimentos,um sorriso pequeno que aprofundava a pele de sua face esquerda. Ela levantou-se de repente e seus cabelos cairam sobre o rosto, ela entao fechou a mão como uma concha e jogou-os para trás. Foi incrível! Assustei-me. Era mais que um déjà vu, era como um espectro do meu passado...

Ia questionar minha tia, quando adentrou a casa uma elegante e jovem senhora, acompanhada de um homem alto, de aparência austera. Eram os pais da menina. Imediatamente busquei o rosto daquela senhora e, quando nossos olhos se encontraram, tive a certeza: era ela...Aproximei-me e fui apresentado ao casal (Finalmente lembrara seu nome!). Conversamos animadamente sobre vários assuntos, todos juntos alí naquela sala. Não mencionei que a conhecia e ela, embora fosse simpática durante todo o tempo, não demonstrava lembrar de mim. Após nos despedirmos e ao vê-la partir, fiquei feliz. Pois estavam respondidos meus questionamentos; ela estava bem, era uma profissional bem sucedida e tinha uma bela familia. Isso bastava...

Alguns minutos depois, preparáva-me para ir embora também, quando ela voltou sozinha e, meio sem jeito, pediu a minha tia que buscasse alguma coisa que sua filha havia esquecido no quarto de minha prima. Ao ver minha tia afastando-se, ela se aproximou e, me olhando nos olhos, disse baixinho: " ainda sonho com aquele caminho, de casa pra escola, de mãos dadas com voce..." . Nao tive tempo de dizer nada, pois minha tia voltara e ela logo se foi. Dessa vez, ao vê-la partir, foi diferente. Senti um aperto no peito, uma angústia...

O destino é assim: nos mostra lá na frente o que, sem sabermos, deixamos pra trás. Quem sabe uma daquelas portas que não escolhemos nos levasse a outros caminhos, mais longos do que o da escola e nos desse o tempo que não tivemos...


Parei as águas do meu sonho
para teu rosto se mirar.
Mas só a sombra dos meus olhos
ficou por cima, a procurar...

Os pássaros da madrugada
não têm coragem de cantar,
vendo o meu sonho interminável
e a esperança do meu olhar.

Procurei-te em vão pela terra,
perto do céu, por sobre o mar.
Se não chegas nem pelo sonho,
por que insisto em te imaginar ?

Quando vierem fechar meus olhos,
talvez não se deixem fechar.
Talvez pensem que o tempo volta,
e que vens, se o tempo voltar.

(Cecília Meireles)



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sexta-feira, junho 20, 2003

Outro dia ouvi alguém dizer: "Tenho tantos amigos que já perdi até a conta".Quem sabe até seja verdade, mas acho mais possível que essa pessoa seja ingênua e esteja equivocada. São diversas as características que compõem uma amizade: afinidade,sinceridade,solidariedade... e principalmente tempo. Isso mesmo, leva tempo para se construir, manter e solidificar uma verdadeira amizade. Por que será que alguns afirmam ter apenas a mãe como melhor e única amiga? Porque ninguém conhece um filho melhor que uma mãe, pois ela esteve ao seu lado por anos. Por isso não acredito em companheirismo instantâneo e solidariedade desinteressada surgida do dia pra noite.

Gostaria de contar a história de uma amizade,já posta à prova em relação a sua consistência, e forte como uma união de sangue.

Há uns dez anos,entrava eu em uma sala de aula, iniciando uma nova turma. Pra mim aquilo era um evento rotineiro, pois os alunos, embora fossem pessoas diferentes,quando colocados em grupos e situações já padronizadas, assumiam comportamentos semelhantes a tantos outros de semestres anteriores. No entanto, naquela turma, um aluno em especial chamou minha atenção. Eu sentia que seu potencial era maior que sua extrema timidez lhe permitia, pois mesmo assim, meio inseguro e cabisbaixo, conseguia sobressair-se dentre todos os outros. Chamei-o para trabalhar comigo e, em pouco tempo, tornou-se apto a ensinar. Tinhamos quase a mesma idade, idéias parecidas e, a partir daí, teve inicio algo que, embora nem suspeitássemos, se tornaria uma grande amizade.

As posições mudavam, fui seu chefe, depois nos tornamos colegas de trabalho, mudávamos de empresa, mas logo, em questão de meses, por indicação de um ou do outro, estávamos juntos novamente. E, assim os anos se passaram, vi sua familia sendo construida, o nascimento do seu filho, acompanhei seus dramas, suas alegrias, e ele as minhas. Tentamos nos enveredar por outras áreas de trabalho, falhamos, passamos extremas dificuldades, sofremos, mas depois, quando tudo acabava, juntos dávamos belas risadas, lembrando e contando as mancadas um do outro.

Éramos, onde quer que estivéssemos, sempre os piadistas da turma, chego a dizer até que "avacalhamos" alguns ambientes reconhecidamente sérios. Mas era um deboche saudável, que contagiava os outros e nos deixava mais leves para enfrentarmos as pedreiras que a vida de professor nos impõe.

Um dia saí de um emprego e ele ficou, quando nos encontramos alguns meses depois em outra empresa (como era de praxe), ele me disse que aqueles meses tinham sido horríveis pois o lugar não era o mesmo se eu não estivesse lá. Não deixei que ninguém percebesse, mas aquilo me emocionou muito, pois era exatamente assim que eu me sentia.

Há alguns meses, tivemos que decidir se gostariamos de mudar de ramo radicalmente, e como sempre, tomamos essa decisão em conjunto e resolvemos encará-la. Foi difícil no início, pois como profissionais de atuação dinâmica, era difícil para nós ficarmos sentados executando um trabalho que, embora fosse interessante, se mostrava extremamente burocrático. Bem, por motivos que fogem a minha compreensão, apenas eu consegui me adaptar a essas mudanças e hoje não estamos mais juntos e sinto que dessa vez não nos encontraremos mais.

Claro que continuamos amigos, brincamos, jogamos bola, rimos... mas ainda me custa crer que amanhã vou chegar no escritório, na escola, onde quer que seja e não vou mais vê-lo fazendo de suas graças, contando piadas nos intervalos... ainda tento não olhar pro lado e ver aquela cadeira vazia.

"Business is Business" fala o cruel mundo dos negócios, e isso é um fato, eu sei. Mas sempre achei que cresceríamos juntos, me parecia errado ter sucesso sozinho. E, embora nada possa fazer agora, um dia quem sabe eu vença na vida e consiga trazer meu amigo de volta, para que além de ter dinheiro, eu possa voltar a sorrir...



Um amigo é alguém que sabe a canção de seu coração e pode cantá-la quando você tiver esquecido a letra

(Autor Desconhecido)

terça-feira, março 05, 2002

Muitos de nossos distúrbios atuais provêm de conflitos da infância. Freud explica. Não sei se todos os problemas vêm de tão longa data, mas pelo menos alguns dos meus só agora tenho capacidade de entender. Sempre ouço pessoas revelando certos temores incompreensivelmente infantis. Há quem tenha medo de palhaços, de cães, de escuro, até de trovões. Eu, dentro desse contexto incomum, sempre tive verdadeira aversão a fotos antigas, daquelas em preto e branco, principalmente aquelas que exibem pessoas sorrindo ou grupos de pessoas em momentos de celebração. Na época de menino, não entendia, só sentia uma incontrolável angústia nessas situações e me afastava. Não posso dizer que hoje a sensação é menos desagradável, mas agora acredito, no entanto, que tenha uma explicação para o fato.

Essas fotos simbolizam a cruel e real certeza da efemeridade humana. Aquelas pessoas felizes das fotos não existem mais, aqueles instantes retratados nas imagens talvez tenham sido importantes, mas quem hoje os vê, apenas tenta, por curiosidade, deduzir suas razões. Lembro que me sentia mal cada vez que minha avó, ao mostrar-me as fotos, dizia não lembrar do nome da maioria daquelas pessoas que, provavelmente, fizeram parte de algum momento de sua vida.

Assombra-me até hoje a recordação de algumas fotos em especial, repetidas diversas vezes nas sessões nostálgicas de minha avó. Eram de um rapaz que, em uma das fotos, sorridente e cercado de amigos, segurava um diploma em suas mãos. Aquilo representava um momento de conquista, o ponto de partida para a realização de sonhos, mas para mim era terrível imaginar que toda uma vida passava ali, em segundos, diante dos meus olhos.

O que mais assusta é que a imagem do tal rapaz foi capturada em outros instantes tão comuns: no barzinho com colegas, em seu aniversário, jogando futebol. Coisas que todos fazemos. Isso só me traz a certeza de que as coisas evoluem, mas a vida não muda, são apenas roupas com outros desenhos em corpos semelhantes, líquidos iguais em copos diferentes, frases ou letras distintas que mesmo com o passar dos anos ainda dizem as mesmas coisas.

Hoje em dia, pensar nisso não mais me tira o sono ou traz revolta diante das leis divinas, mas, após minha partida, se possível, ainda não sei o que mais me incomodaria saber: ser "honrado" com a adoção de meu nome por uma praça ou instituição de ensino, tornando-me mais um ilustre, bucolicamente desconhecido, ou ter minha imagem, registrada num papel, esquecida no fundo de um armário.




A ausência de cores não apaga o rastro da lágrima
ou o sorriso por detrás do traço apagado
de um instante gravado uma só vez
Cada imagem conta um pouco do todo
na pose espectral do retrato antigo
que vence as dobras do papel que o tempo fez

(Harry)